Escassez de Memória na Era da Inteligência Artificial: tudo o que você precisa saber Nos últimos dois anos, a corrida […]

Escassez de Memória na Era da Inteligência Artificial: tudo o que você precisa saber

Nos últimos dois anos, a corrida mundial por soluções de Inteligência Artificial (IA) deixou um rastro inesperado: a falta de chips de memória e dispositivos de armazenamento em praticamente toda a cadeia de tecnologia. Enquanto servidores dedicados a modelos de linguagem de grande porte (LLMs), carros autônomos e aplicações de edge computing devoram DRAM, NAND Flash e discos rígidos, grandes fabricantes adotam uma postura contraintuitiva — evitar, pelo menos por ora, a expansão agressiva da capacidade produtiva. Neste artigo, vamos desvendar:

  • Por que a indústria de memória vive em ciclos de “montanha-russa”;
  • Como exatamente a IA pressiona o consumo de DRAM, HBM e NAND;
  • Os impactos tangíveis para mercados de PCs, smartphones e datacenters tradicionais;
  • A lógica econômica por trás da cautela de Samsung, Micron, SK Hynix, Seagate e outras;
  • Cenários de médio prazo (2026+) e estratégias para empresas, desenvolvedores e investidores se protegerem — ou aproveitarem — da escassez.

Prepare-se para um guia técnico, mas prático, que combina análise de mercado, contexto histórico e exemplos reais para ajudá-lo a navegar neste momento crucial da indústria de semicondutores.

1. Anatomia do ciclo da indústria de memória

1.1 Crescimento exponencial seguido de quedas abruptas

A produção de DRAM e NAND sempre foi marcada por alta sensibilidade entre oferta e demanda. Diferente de CPUs ou GPUs — cujo portfólio muda a cada 18 a 24 meses —, a memória é essencialmente uma commodity. Quando os preços disparam, fabricantes correm para erguer novas fábricas (fabs). No entanto, essas plantas levam em média 3 a 4 anos para iniciar operação plena. Se, nesse meio-tempo, a demanda esfria, o mercado afunda em excesso de oferta, os preços despencam e as margens evaporam.

Foi o que aconteceu em 2019 e novamente em 2023, quando a combinação de guerra comercial EUA–China, pandemia e queda nas vendas de PCs provocou write-offs bilionários em Micron, SK Hynix e Western Digital. Essas lembranças ainda estão frescas na mente dos executivos.

1.2 Tipos de memória e por que cada um se comporta de forma diferente

  • DRAM convencional: principal memória volátil em PCs, servidores e celulares. Ciclo de atualização relativamente estável (DDR4, DDR5…).
  • HBM (High Bandwidth Memory): DRAM empilhada em 3D, colada ao processador com through-silicon vias. Essencial para GPUs de IA. Margens bem maiores, mas produção complexa.
  • NAND Flash: memória não volátil em SSDs, pendrives e cartões. Evolui em camadas 3D (hoje já acima de 230 layers) e escala mais rápido que DRAM.
  • HDDs: discos rígidos ainda dominam o cold storage em nuvem. Seu custo por terabyte segue imbatível, embora o share venha caindo.

Entender esses segmentos ajuda a explicar por que alguns produtos sumiram das prateleiras primeiro (HBM para GPUs) enquanto outros seguem relativamente estáveis (HDD comercial).

2. Por que a Inteligência Artificial elevou o consumo de memória a novos patamares

2.1 A equação da IA: modelo maior = mais parâmetros = mais memória

Modelos de linguagem como GPT-4, Gemini ou Llama são medidos em bilhões de parâmetros. Cada parâmetro é representado em float ou bfloat16, ocupando bytes na DRAM. Quando é preciso treinar ou fine-tunear o modelo, ele precisa caber, com folga, na memória de cada GPU ou TPU. Para ilustrar:

  • Um modelo com 175 bilhões de parâmetros, usando 2 bytes por parâmetro (bfloat16), exige ~350 GB de DRAM apenas para weights.
  • Adicione gradientes, otimizações e lotes de treinamento (batches) e o consumo salta facilmente para mais de 1 TB por GPU.
  • Um cluster típico de treinamento utiliza centenas de GPUs interligadas, multiplicando o consumo de DRAM especializada (HBM3e, por exemplo) por milhares de terabytes.

Esse apetite explica por que Nvidia e AMD especificam suas placas topo de linha com até 192 GB de HBM por GPU — valor inimaginável no início da década passada.

2.2 Armazenamento para datasets e inferência

Além do treinamento, a IA gera torrentes de dados em três frentes:

  1. Dataset bruto: textos, imagens, vídeos, logs de sensores. Petabytes por projeto.
  2. Checkpoints de treinamento: versões intermediárias do modelo são salvas periodicamente — cada checkpoint pode ter centenas de GB.
  3. Inferência em produção: quando milhares de usuários consultam um modelo, versões quantizadas são replicadas em diversos servidores, exigindo SSDs NVMe de alta velocidade para reduzir latência.

Em suma, a IA pressiona todas as camadas da pirâmide de memória e armazenamento, da cache L1 dentro do chip à fita magnética em arquivos de longo prazo.

2.3 Renovação anual de hardware

Nvidia, AMD e até novas competidoras (Tenstorrent, Graphcore, Cerebras) lançam gerações anuais de GPUs/NPUs com saltos de performance de 30 % a 50 %. Cada salto exige HBM mais larga, DRAM mais rápida e NAND de maior densidade, realimentando a procura e encurtando o ciclo de substituição de servidores.

3. Impactos imediatos da escassez para mercados adjacentes

3.1 Escalada de preços e repasse ao consumidor

Entre o primeiro trimestre de 2024 e o segundo de 2025, o preço de contrato para DDR5 16 Gb subiu mais de 55 %. SSDs corporativos PCIe 4.0 de 7 TB aumentaram cerca de 40 % no mesmo período. As consequências práticas incluem:

  • PCs gamer e workstations profissionais com preços acima do previsto pelo mercado;
  • Fabricantes de smartphones premium postergando upgrades de capacidade interna (256 GB ainda domina em vez de 512 GB);
  • Cloud providers repassando custos a clientes de IaaS e PaaS, encarecendo soluções SaaS.

3.2 Prazos de entrega mais longos

Para HBMs de última geração (HBM3e), o lead time chegou a 30 semanas em 2025, o dobro do padrão pré-IA. Pequenas e médias empresas, sem contratos prioritários, ficam em segundo plano na fila, atrasando lançamentos de produtos que dependem de aceleração de IA local.

3.3 Estrangulamento de inovação em segmentos “não IA”

A indústria automotiva, por exemplo, necessita de DRAM para infotainment e ADAS. Com a alocação preferencial para datacenters, alguns fornecedores automotivos relatam dificuldades em garantir lotes de memória LPDDR5 antes focados nos smartphones.

4. Por que os fabricantes resistem a expandir capacidade de forma agressiva

4.1 Lembranças de 2023: prejuízos bilionários após a festa

No ciclo anterior, empresas como Micron e SK Hynix investiram pesadamente em 2020–2021, impulsionadas pelo “efeito pandemia” (home office + upgrades de PC). Quando a demanda se normalizou, em 2023, o ASP (Average Selling Price) de DRAM caiu até 50 % em 12 meses, levando o setor a prejuízos cumulativos superiores a US$ 10 bilhões. Acionistas pressionaram por disciplina de capital.

Escassez de Memória na Era da Inteligência Artificial: causas, impactos e estratégias para atravessar o novo “boom” dos semicondutores - Imagem do artigo original

Imagem: Michael Vi

4.2 Capex gigantesco versus contratos de curto prazo

Erguer uma fab avançada para DRAM em nós de 1ßnm ou HBM de 12-hi custa US$ 12 a 15 bilhões, além de demandar subsídios, licenças ambientais e uma cadeia de suprimentos altamente especializada (litografia EUV, gases de grau eletrônico, químicos ultrapuros). Para tomar a decisão, CFOs exigem:

  • Visibilidade de demanda de pelo menos cinco anos;
  • Contratos take-or-pay ou volume-compromisso com big techs;
  • Margem operacional garantida num patamar mínimo (ex.: 25 %).

No entanto, clientes de memória estão acostumados a comprar no spot market ou negociar trimestre a trimestre, dificultando acordos de longo prazo.

4.3 Estratégia de “crescer com parcimônia”

O plano vigente entre 2025 e 2026, adotado por quase todas as fabricantes, consiste em:

  • Expandir yield (aproveitamento) das linhas atuais, trocando para nós menores, sem construir fábricas do zero;
  • Converter parte da capacidade de DRAM convencional para HBM, obtendo margens maiores;
  • Investir em packaging avançado (CoWoS, InFO) para capturar mais valor agregado sem elevar tanto o capex.

Essas medidas adicionam oferta de forma incremental, mas não resolvem um gargalo estrutural se a IA continuar acelerando no ritmo corrente.

5. Cenários futuros e oportunidades para diferentes stakeholders

5.1 Projeções de demanda: 2026 a 2030

Agências de análise convergem em projeções de CAGR (taxa composta de crescimento anual) de 18 % a 22 % para DRAM de alta largura de banda e 19 % para soluções de armazenamento enterprise até 2029. Três variáveis podem alterar o cenário:

  1. Adoção de IA generativa em dispositivos finais (computadores pessoais, smartphones, wearables), que deslocaria ainda mais demanda de memória para a borda.
  2. Inovação em quantização: se modelos menores (small language models) se mostrarem suficientes para muitas tarefas, a pressão pode diminuir.
  3. Política industrial: subsídios do CHIPS Act nos EUA, Chips for Europe e programas asiáticos podem acelerar capacidade.

5.2 Riscos e como as empresas podem se blindar

  • Lock-in de fornecedor: depender de um único produtor de HBM é arriscado. Estratégia: contratos multi-sourcing e certificação cruzada.
  • Câmbio e inflação: componentes importados ficam mais caros com dólar alto. Estratégia: “hedge” cambial e inventory buffering.
  • Ciclo de inovação apertado: comprar hardware na “véspera” de uma nova geração pode reduzir o tempo de vida do investimento. Estratégia: roadmaps conjuntos e cláusulas de tech refresh.

5.3 Oportunidades para investidores

Embora o setor seja volátil, momentos de escassez costumam elevar margins a níveis historicamente altos. Micron registrou, no último ciclo de alta, margem operacional acima de 40 %, contra média histórica de 25 %. Investidores de perfil moderado podem:

  • Sportar-se em ETFs de semicondutores para diluir risco específico;
  • Buscar empresas de upstream (equipamentos — ASML, Applied Materials), menos impactadas por oscilações de DRAM.
  • Considerar indústrias complementares (packaging, substratos ABF) que se beneficiam independentemente do mix de DRAM versus HBM.

6. O papel dos governos e políticas públicas

6.1 Subsídios e incentivos fiscais

Estados Unidos, União Europeia, Coreia do Sul e Japão anunciam pacotes de incentivos de até US$ 200 bilhões combinados para semicondutores nesta década. Os objetivos são múltiplos:

  • Reduzir dependência da Ásia para componentes críticos;
  • Criar empregos de alta qualificação;
  • Fortalecer a segurança nacional (chips militares também usam DRAM).

6.2 Requisitos de compartilhamento de risco

Alguns programas exigem contrapartidas: acordos de fornecimento a preços estáveis, ou prioridade a setores estratégicos (saúde, defesa). Isso pode suavizar ciclos, mas ainda não há evidência histórica suficiente para confirmar.

6.3 Sustentabilidade e economia circular

Fábricas de memória são grandes consumidoras de energia e água ultrapura. Reguladores europeus impõem metas de carbono neutro e consumo hídrico. Um dilema surge: expandir produção pode colidir com metas ambientais, adicionando outra camada de complexidade a decisões de capex.

Conclusão: navegando pelo paradoxo da abundância de dados e escassez de memória

A inteligência artificial inaugura uma era de abundância informacional, mas, paradoxalmente, traz consigo a escassez física de hardware para armazenar e processar esses dados. O setor de memória, historicamente volátil, agora se vê no epicentro de uma demanda sem precedentes, porém mantém cautela para não repetir os erros do passado.

Para profissionais de TI, equipes de compras e investidores, a mensagem principal é clara:

  • Planejamento de longo prazo tornou-se mandatório. Avalie contratos plurianuais e estoques estratégicos.
  • Flexibilidade arquitetônica — seja em nuvem híbrida, multi-cloud ou edge — ajuda a contornar gargalos pontuais.
  • Monitoramento contínuo de roadmap de fornecedores é fundamental para evitar custos de oportunidade e obsolescência precoce.

Ao combinar inteligência de mercado, alianças de fornecimento e inovações de software (compressão, quantização e modelos mais eficientes), organizações podem não apenas sobreviver à escassez, mas transformar o cenário em vantagem competitiva. Afinal, em um mundo movido a dados, quem domina a memória — literal e figurativamente — detém a chave da próxima revolução tecnológica.

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