Na tarde de 10 de janeiro de 2026, moradores de São José dos Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba, viram o céu escurecer, sentiram o vento crescer e, em poucos minutos, o que parecia uma tempestade de verão transformou-se em um tornado classificado como F2, com rajadas estimadas em 180 km/h. Embora o funil tenha tocado o solo por menos de um quilômetro, o suficiente para derrubar muros, arrancar telhados e afetar cerca de 350 residências, o evento acendeu um sinal de alerta em todo o Sul do Brasil. Afinal, tornados não são exclusividade da “Tornado Alley” norte-americana; eles já fazem parte da climatologia brasileira, sobretudo na faixa que vai do interior do Rio Grande do Sul ao sul de São Paulo.
Neste guia definitivo, vamos mergulhar nos aspectos científicos, históricos e práticos que envolvem esse fenômeno: como e por que surgem, de que forma são classificados, quais são os fatores que tornam o Sul mais vulnerável, qual tecnologia existe hoje para monitorá-los e, principalmente, o que cada pessoa pode fazer para reduzir riscos. Se você busca um conteúdo completo, técnico e aplicado à realidade brasileira, está no lugar certo.
1. O que é um tornado e como ele se forma
1.1 Definição básica
Um tornado é uma coluna de ar em intensa rotação que se estende da base de uma nuvem cumulonimbus até a superfície. Essa coluna é visível graças à condensação de vapor d’água (formando a “nuvem funil”) e aos detritos que o vento ergue do solo. Diferente de um ciclone, que é um sistema de baixa pressão de escala sinótica (centenas de quilômetros), o tornado é um fenômeno de escala microscópica na meteorologia, com diâmetro de dezenas a centenas de metros e vida média de minutos.
1.2 Os ingredientes para a receita de um tornado
- Calor e umidade na camada baixa da atmosfera – combustível para gerar nuvens altas e carregadas.
- Ar frio em níveis médios e altos – cria instabilidade, fazendo o ar quente subir rapidamente.
- Cisalhamento de vento (wind shear) – mudança de direção e velocidade do vento com a altitude. Ele gera rotação horizontal que pode ser inclinada e intensificada dentro da tempestade.
- Trigger – fronteira de massas de ar, linha de instabilidade ou frente fria capaz de “disparar” a tempestade.
Quando a tempestade supercelular se estrutura, surge um mesociclone – rotação organizada em grande escala (10–20 km de diâmetro). Em certos casos, parte dessa circulação concentra-se na base da nuvem, formando o tornado.
1.3 Diferença entre tornado, tromba-d’água e microexplosão
Embora possam parecer semelhantes, os três fenômenos possuem mecânicas distintas:
- Tornado – ligação nuvem-solo, vento rotacional, geralmente associado a supercélulas.
- Tromba-d’água – tornado que se forma sobre água. A física é a mesma, contudo seus danos tendem a ser menores ao atingir áreas terrestres, pois frequentemente enfraquece.
- Microexplosão (downburst) – coluna de ar que desce da nuvem e se espalha radialmente ao tocar o solo. Emite rajadas lineares, não rotacionais. Pode produzir estragos semelhantes, mas a assinatura no radar e os padrões de danos são diferentes.
2. Escala Fujita: como medir a força dos tornados
2.1 Origem e evolução
A Escala Fujita foi criada em 1971 pelo meteorologista Theodore Fujita para relacionar a intensidade dos ventos do tornado aos danos observados. Em 2007, nos EUA, ela foi atualizada para Escala Fujita Melhorada (EF-Scale), calibrando categorias de F0 a F5 com descritores de construção modernos. No Brasil, porém, ainda se adota a escala original.
2.2 Categorias e danos típicos
- F0 – 65 a 116 km/h: galhos quebrados, telhas arrancadas.
- F1 – 117 a 180 km/h: destelhamento parcial, postes inclinados.
- F2 – 181 a 253 km/h: telhados inteiros arrancados, casas de madeira desmoronam.
- F3 – 254 a 332 km/h: paredes de construções robustas colapsam, árvores arrancadas pela raiz.
- F4 – 333 a 418 km/h: estruturas de concreto comprometidas, automóveis lançados a dezenas de metros.
- F5 – 419 a 511 km/h: destruição quase total; apenas fundações permanecem.
A classificação não é feita em tempo real. Equipes de meteorologistas vistoriam a área atingida, analisam padrões de danos e, só então, estimam a velocidade dos ventos que ficaram, no mínimo, três segundos sobre cada ponto.
2.3 Porque o tornado de São José dos Pinhais foi F2
Os peritos encontraram muros desabados, pilares metálicos retorcidos e pilhas de telhas a mais de 50 m de distância das casas originais. Esses sinais se enquadram na faixa de “danos consideráveis” (F2). Além disso, as rajadas mensuradas por anemômetros próximos variaram de 150 a 180 km/h, corroborando a análise pós-evento.
3. Radiografia do evento de 10 de janeiro de 2026
3.1 Linha do tempo
- 17h 20 – Supercélula se desenvolve sobre Almirante Tamandaré.
- 18h 00 – Núcleo convectivo atinge Curitiba, gera granizo e rajadas de 70 km/h.
- 18h 25 – Funil começa a se formar na zona norte de São José dos Pinhais.
- 18h 28–18h 31 – Contato intermitente com o solo; pico de intensidade (F2).
- 18h 40 – Célula avança para o Litoral, perdendo força ao encontrar ar mais estável.
3.2 Estragos mapeados
O bairro Guatupê concentrou 80 % dos danos, com queda de árvores de 30 cm de diâmetro, postes tombados e placas comerciais arremessadas. A maioria das 350 residências afetadas sofreu destelhamento parcial. Duas famílias ficaram desalojadas após o colapso de paredes portantes, cenário típico de um F2.
3.3 Por que o funil não foi contínuo?
Tornados podem “pular” devido à perda momentânea de rotação ou ingestão de ar mais frio perto do solo. No caso paranaense, o terreno irregular e a alta concentração de edificações criaram turbulência adicional, fazendo o funil se desconectar e reconectar em vários pontos ao longo do trajeto de 1 km.
4. Por que o Sul do Brasil é terreno fértil para tornados
4.1 Encontro de massas de ar
Entre a primavera e o verão, massas de ar quente e úmido da Amazônia avançam para o Sul, onde encontram ar mais frio vindo do polo. Essa colisão forma zonas de convergência que alimentam tempestades severas.
4.2 A influência do relevo
Os vales dos rios Paraná, Uruguai e Iguaçu atuam como corredores de umidade e facilitam a organização de linhas de instabilidade. Já o Planalto Paranaense, com altitudes acima de 900 m, pode forçar o ar ascendente, favorecendo a formação de supercélulas – pré-requisito para a maioria dos tornados fortes.
4.3 Cisalhamento promovido pelo jato subtropical
O Subtropical Jet Stream, corrente de ventos intensos a cerca de 10–12 km de altitude, está frequentemente posicionado sobre a Região Sul. Ele aumenta o cisalhamento vertical, ingrediente-chave para a rotação dentro das nuvens de tempestade.
Imagem: Simepar
4.4 Papel de El Niño e La Niña
Anos de El Niño tendem a tornar a atmosfera mais instável no Sul, elevando a frequência de sistemas frontais e, por consequência, das tempestades severas. Em contrapartida, La Niña pode deslocar esses sistemas para latitudes mais ao norte do país, redistribuindo o risco.
5. Como se preparar e reduzir riscos
5.1 Reconheça os sinais de um tornado
- Nuvem em forma de funil descendo da base da tempestade.
- Céu verde-escuro ou amarelado, resultado da reflexão da luz pelo granizo.
- Ruído constante semelhante a um trem de carga.
- Acalmia repentina após vento forte e chuva intensa – pode indicar que o núcleo de rotação se aproxima.
5.2 Elabore um plano familiar
- Ponto seguro: porão, banheiro interno ou closet no piso térreo, longe de janelas. Ausência de sótãos subterrâneos em boa parte das casas brasileiras exige improvisar refúgios internos com paredes extras.
- Kit de emergência: lanterna, rádio a pilha, carregador portátil, água potável, alimentos não perecíveis, cópias de documentos.
- Contato: mantenha telefones de Defesa Civil e de vizinhos em local visível.
- Simulações: pratique trajeto até o abrigo pelo menos 2 vezes ao ano, especialmente antes da estação chuvosa.
5.3 Reforço estrutural de edificações
Embora a legislação brasileira ainda não exija normas específicas contra tornados, algumas práticas de engenharia podem minimizar os danos:
- Fixação de telhas com parafusos e arruelas metálicas, substituindo pregos.
- Uso de straps metálicos ligando tesouras de madeira à alvenaria.
- Instalação de portas e janelas com vedação reforçada para reduzir pressão interna.
- Projetos elétricos subterrâneos em condomínios novos, diminuindo quedas de postes.
5.4 O que fazer durante o impacto
- Vá imediatamente para o abrigo pré-definido; segundos fazem diferença.
- Cubra-se com colchão ou capacete de ciclismo para proteger a cabeça.
- Afaste-se de janelas e evite abrigar-se em veículos ou estruturas leves como quiosques.
- Se estiver ao ar livre sem abrigo, deite-se em vala ou depressão, protegendo a cabeça (último recurso).
5.5 Pós-evento: segurança e assistência
- Desligue energia e gás se houver danos na rede.
- Não toque em fios caídos; acione companhia elétrica.
- Fotografe estragos para fins de seguro ou laudos.
- Comunique a Defesa Civil para avaliação estrutural antes de reocupar a residência.
6. Tecnologia de monitoramento e alerta no Brasil
6.1 Rede de radares meteorológicos
Estados como Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina contam com radares Doppler de banda S e C. Eles detectam não apenas a refletividade (chuva), mas também o velocidade radial, capaz de revelar assinaturas de rotação (ganchos ou hook echoes) precursores de tornados.
6.2 Satélites geoestacionários GOES-16 e GOES-18
As imagens em alta resolução (500 m) no canal visível e as bandas infravermelho de vapor d’água permitem estimar topos de nuvens, divergência de ventos e fase de gelo, fundamentais para prevêr tempestades convectivas fortes com até uma hora de antecedência.
6.3 Modelos numéricos de alta resolução
Instituições como o Simepar e o INMET executam modelos WRF e COSMO com grade de 1–3 km, capazes de simular supercélulas explicitamente. Embora a previsibilidade exata de um tornado ainda seja baixa, esses modelos fornecem nowcasting de 0 – 6 h que ajuda Defesa Civil e imprensa a emitirem avisos.
6.4 Alertas via SMS e aplicativos
O sistema “Alerta Defesa Civil” envia mensagens de texto quando há risco de fenômenos severos. Aplicativos como Meteum, Climatempo e Weather Radar exibem alertas push. No Paraná, o canal Simepar Field Ops distribui produtos de radar em tempo real para agentes municipais.
7. Mudanças climáticas e a tendência futura de eventos extremos
7.1 O que dizem os estudos
Modelos de alta resolução utilizados no 6.º Relatório de Avaliação do IPCC projetam aumento na energia potencial convectiva disponível (CAPE) para latitudes médias do Hemisfério Sul sob cenários de aquecimento de 2 °C ou mais. Em paralelo, há indícios de intensificação do cisalhamento em níveis baixos devido à expansão dos ventos de oeste.
7.2 Dilema brasileiro
Nossa malha urbana cresce mais rápido que a adaptação das infraestruturas. Áreas de ocupação irregular tendem a ter construções frágeis, aumentando vulnerabilidade. A combinação de maior exposição (população) e potencial intensificação dos eventos severos sugere que, mesmo que a frequência absoluta de tornados não cresça, o impacto socioeconômico deve subir.
7.3 Adaptação e políticas públicas
- Inserir critérios de resistência a ventos extremos nas normas brasileiras de construção (NBR 6123 revisionada).
- Expandir cobertura de radares Doppler para o Centro-Oeste e Sudeste.
- Capacitar defesas civis municipais em reconhecimento de assinatura radar.
- Incentivar micro-seguros climáticos para famílias de baixa renda.
Conclusão
O tornado de São José dos Pinhais mostrou que fenômenos de vento extremo podem ocorrer em qualquer município do Sul do Brasil, independentemente de sua distância do litoral ou de serras. Com 180 km/h, o F2 não é o topo da escala, mas foi suficiente para deixar dezenas de famílias desabrigadas e expôs lacunas de planejamento urbano, engenharia e preparação comunitária.
Compreender a dinâmica de formação, a Escala Fujita e a climatologia regional é o primeiro passo para reduzir perdas. O segundo é agir: reforçar construções, treinar moradores, investir em tecnologia de monitoramento e aprimorar a comunicação de riscos. Como vimos, a ciência já fornece ferramentas robustas – radares, satélites, modelos numéricos –, mas seu valor depende de políticas públicas e do engajamento individual.
Se você mora em área suscetível, aproveite este guia como referência prática: revise a estrutura da sua casa, monte um kit de emergência e cadastre-se nos sistemas de alerta. Tornados podem durar minutos; suas consequências, anos. Informação, portanto, continua sendo a mais sólida barreira entre a ameaça e a tragédia.


