Por que os cães giram antes de fazer xixi e cocô? Entenda a ciência, a história e a prática Qualquer […]

Por que os cães giram antes de fazer xixi e cocô? Entenda a ciência, a história e a prática

Qualquer tutor já presenciou a cena: o cão escolhe um ponto aparentemente perfeito no gramado, começa a farejar, dá duas, três, às vezes dez voltas, cheira de novo e só então se agacha para urinar ou defecar. A impressão é de que o animal está “procurando o melhor ângulo”, mas, na verdade, ele segue um roteiro bem mais complexo, que mistura evolução, comunicação química e até o campo magnético da Terra. Este guia aprofunda cada uma dessas camadas, expondo as evidências científicas mais recentes e traduzindo-as em dicas práticas para o dia a dia do tutor.

1. Raízes evolutivas: o elo entre lobos ancestrais e cães domésticos

1.1 O comportamento de girar não nasceu no sofá da sala

Antes de serem pets, os cães eram Canis lupus dividindo território com grandes predadores. Defecar ou urinar significava ficar vulnerável por segundos preciosos. Girar em círculos cumpria, então, três funções básicas:

  • Vigilância 360°: enquanto gira, o animal mapeia todos os ângulos ao redor para identificar ameaças.
  • Preparação do terreno: pisotear a vegetação remove obstáculos, espanta pequenos artrópodes e evita o contato direto com formigas ou carrapatos.
  • Marcação territorial: o ato de rodar espalha feromônios das glândulas sudoríparas das patas sobre o solo, potencializando a mensagem química deixada pelas fezes ou a urina.

1.2 Lobos e a padronização do eixo Norte-Sul

Estudos de campo com alcateias selvagens revelam que lobos também tendem a alinhar o corpo ao eixo magnético Norte-Sul em atividades de repouso prolongado — dormir, amamentar e, curiosamente, defecar. Isso indica que a escolha direcional existia antes da domesticação. Com a seleção artificial, conservamos o comportamento porque ele não atrapalhava a convivência humana e, em alguns contextos (cães de pastoreio, por exemplo), até auxiliava na orientação em campo aberto.

2. Magnetorrecepção: a bússola biológica dos cães

2.1 O que é magnetorrecepção?

Magnetorrecepção é a capacidade de detectar o campo magnético terrestre e usá-lo como ponto de referência. A habilidade está documentada em aves migratórias, tartarugas-marinhas, salmões, abelhas e, mais recentemente, em mamíferos como toupeiras, morcegos e cães. No caso canino, sensores sensíveis a variações de intensidade magnética estariam distribuídos em células do sistema nervoso periférico, sobretudo na região do focinho e nos olhos, onde pigmentos foto-sensíveis (criptocromos) podem converter estímulos magnéticos em sinais neurais.

2.2 Evidências experimentais em cães domésticos

Pesquisadores da Universidade de Praga analisaram mais de 70 cães de 37 raças diferentes ao longo de dois anos, registrando 1.893 evacuações e 5.582 micções. Em condições de campo magnético estável, 70% dos animais alinharam o corpo no eixo Norte-Sul. Quando ocorreram tempestades solares ou picos de variação geomagnética, a orientação tornou-se aleatória e o número de voltas aumentou, sugerindo uma “busca” por sinal.

2.3 Como o sentido magnético influencia o ritual de girar

O giro funciona como uma “calibração”: o cão coleta leituras sucessivas do campo, compara com a última referência interna e decide quando o alinhamento está dentro de um erro aceitável. Pense em um aplicativo de bússola no celular que pede para o usuário desenhar um “8” no ar antes de ser utilizado — o princípio é similar.

3. Benefícios práticos do comportamento de girar

3.1 Redução de risco biológico

Ao pisotear a grama, o cão afugenta insetos que poderiam picá-lo nas partes íntimas. Adicionalmente, remove fragmentos pontiagudos (espinhos, galhos) que podem ferir a pele sensível ao redor do ânus ou do prepúcio.

3.2 Otimização da comunicação química

Urina e fezes são cartões de visita olfativos. Girar ajuda a:

  • Aumentar a superfície de contato entre secreções das glândulas anais e o solo.
  • Espalhar o odor para distâncias maiores, facilitando a detecção por outros cães.
  • Combinar pistas de glândulas nas patas com a mensagem intestinal, criando um “perfil” mais completo do emissor (sexo, idade, estágio reprodutivo, dieta).

3.3 Termorregulação e conforto

Em locais muito quentes ou frios, o animal pode girar para identificar microclimas mais amenos — uma sombra mínima ou um ponto onde o solo está menos gelado — antes de se agachar. Essa escolha diminui o estresse térmico, especialmente em raças braquicefálicas, propensas a hipertermia.

4. Fatores que alteram o número de voltas e o alinhamento

4.1 Variações do campo magnético

Como vimos, perturbações solares confundem a bússola canina. Em dias de aurora austral ou tempestade geomagnética, não estranhe se o pet parecer “perdido” por mais tempo.

4.2 Ambiente urbano versus rural

  • Interferência eletromagnética: fiações aéreas, transformadores e redes Wi-Fi podem criar “zonas de ruído” que mascaram o sinal natural.
  • Superfícies artificiais: em pisos de concreto, o odor se dissipa mais rápido, exigindo que o cão gire e cheire repetidas vezes até sentir segurança.

4.3 Estado emocional e saúde

Animais ansiosos, com dores articulares ou incômodos gastrointestinais tendem a prolongar o ritual ou, em casos extremos, evitam defecar fora de casa. Observe sinais de desconforto, como arqueamento exagerado da coluna, gemidos ou olhar suplicante. A persistência desses sintomas pode indicar colite, obstrução ou até giardíase.

Por que os cães giram antes de fazer xixi e cocô? Guia definitivo sobre magnetorrecepção e comportamento canino - Imagem do artigo original

Imagem: inteligência artificial

4.4 Idade e nível de treino

Cães idosos, com mobilidade reduzida, diminuem a quantidade de voltas, mas não abandonam totalmente o comportamento. Já filhotes costumam exagerar na rotação, testando cheiros e texturas enquanto refinam sua percepção magnética. Reforço positivo no local correto de eliminação acelera a curva de aprendizado.

5. Transformando ciência em prática: o que o tutor precisa saber

5.1 Escolha do local de passeio

  • Prefira áreas verdes e amplas, longe de postes de alta tensão ou geradores.
  • Evite pressa: bloquear o giro natural aumenta o estresse e pode predispor a cistite por retenção de urina.
  • Ofereça variedade: solos diferentes (grama, terra batida, areia) enriquecem o repertório sensorial e ajudam o cão a “calibrar” melhor seu sistema.

5.2 Interpretação de sinais

Giros excessivos, acompanhados de choro ou tentativa de lamber a região anal, podem indicar sacculite (inflamação das glândulas anais). Nesse caso, solicite avaliação veterinária para esvaziamento ou tratamento antibiótico.

5.3 Enriquecimento ambiental em quintais

Se o pet faz as necessidades em casa, crie um toilet spot magnético-friendly:

  • Posicione a área em linha visada com o eixo Norte-Sul (bússola de celular ajuda).
  • Utilize um substrato absorvente de gramagem média para facilitar o farejamento.
  • Renove o material periodicamente, mantendo uma “assinatura olfativa” que ele reconheça.

5.4 Treino respeitoso versus interrupção

Nunca puxe a guia ou tente levantar o cão no meio do giro. Além de frustrar o instinto natural, você corre o risco de causar lesões lombares. Aguarde a finalização e, então, recompense com petiscos ou elogios.

6. Mitos comuns e perguntas frequentes (FAQ)

6.1 “Meu cachorro gira porque está cantando para a lua”

Pouco provável. A rotação tem base sensorial e evolutiva, não ritualística.

6.2 “Cães que giram demais vão ter torção gástrica”

Torção gástrica está associada a ingestão rápida de grandes volumes de alimento e exercício vigoroso após a refeição, não ao ato de girar para evacuar.

6.3 “Se o cachorro faz xixi virado para o Norte, ele absorve mais energia”

Embora novas linhas de pesquisa explorem biomagnetismo, não há evidência de “recarga energética”. O alinhamento serve à orientação, não à filtração de forças cósmicas.

6.4 “Posso treinar meu cão para girar menos?”

Você pode reduzir a ansiedade que prolonga o ritual, oferecendo ambiente seguro e rotina previsível. No entanto, extinguir completamente o giro seria contrariar um instinto benéfico.

7. Conclusão: quando ciência e convivência se encontram

O simples hábito de ver seu cão rodando antes de aliviar-se carrega séculos de história evolutiva e uma fascinante tecnologia biológica: a magnetorrecepção. Compreender esse mecanismo não só sacia a curiosidade do tutor, mas também melhora a qualidade de vida do animal, permitindo passeios mais tranquilos, diagnósticos precoces de problemas de saúde e estratégias de treinamento baseadas em respeito. Então, da próxima vez que seu companheiro canino começar o balé circular, lembre-se: ele não está confuso — está apenas sincronizando a própria bússola com o planeta que compartilha com você.

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