Alphabet compra Intersect: como a nova estratégia de data centers e energia pode redefinir a corrida da IA
Em poucos mercados a máxima “quem possui a infraestrutura controla o jogo” é tão verdadeira quanto no universo da inteligência artificial (IA). Na virada para 2026, a Alphabet — controladora do Google — anunciou a aquisição da Intersect, empresa norte-americana especializada em construção de data centers e em projetos de geração de energia sob medida. O investimento de US$ 4,75 bilhões sinaliza que, para sustentar modelos cada vez maiores e mais custosos, não basta ter os melhores algoritmos; é preciso ter, também, o melhor encanamento digital e energético. Este guia definitivo disseca, em profundidade, os motivos, desafios e oportunidades por trás dessa jogada bilionária e mostra como ela redefine o futuro da computação em nuvem, da sustentabilidade e, claro, da própria IA.
1. A era da infraestrutura: por que data centers viraram o principal gargalo da IA
Grandes modelos de linguagem, sistemas de recomendação em tempo real e serviços de IA generativa consomem quantidades inéditas de processamento, armazenamento e, acima de tudo, energia elétrica. Para entender o movimento da Alphabet, vale examinar três fenômenos que se retroalimentam:
- Escala de parâmetros: Modelos que tinham centenas de milhões de parâmetros em 2020 agora ultrapassam a marca de 1 trilhão, impulsionando a demanda por GPUs e TPUs especializadas.
- Disponibilidade 24/7: Chatbots, copilotos de código e buscas multimodais exigem latência mínima, forçando a implantação de data centers geograficamente distribuídos.
- Custo energético: Segundo estimativas de mercado, até 40% do custo operacional de um data center hiper-scale é eletricidade. Ou seja, IA sem energia barata não fecha a conta.
Com a procura por inferência e treinamento crescendo exponencialmente, construir ou alugar data centers se tornou o fator limitante da inovação. É nesse contexto que a Intersect entra em cena.
2. Quem é a Intersect e por que vale quase cinco bilhões de dólares
Fundada em 2016 no Vale do Silício, a Intersect nasceu com a proposta de integrar engenharia civil, elétrica e de software para erguer data centers “turn-key”, prontos para operação, em menos tempo que o padrão da indústria. Seus diferenciais competitivos incluem:
- Design modular: blocos prefabricados que aceleram a entrega de faseamento (fase 1, 2, 3) e permitem escalonar potência em poucas semanas.
- Integração energética: a companhia projeta usinas fotovoltaicas, eólicas e sistemas de baterias já acoplados ao campus de servidores, reduzindo dependência da rede pública.
- Contratos PPA flexíveis: parcerias de compra de energia (Power Purchase Agreements) que fixam preço por quilowatt-hora em prazos longos — blindagem contra volatilidade.
- Equipe multidisciplinar: engenheiros civis, elétricos, especialistas em termodinâmica e desenvolvedores de software de automação trabalham sob o mesmo capô.
Essas competências fizeram da Intersect uma peça valiosa num tabuleiro onde Amazon, Microsoft, Meta e outras big techs disputam terrenos, licenças ambientais e linhas de transmissão. Não à toa, o Google já possuía participação minoritária desde 2024 e co-desenvolvia um campus no Texas, agora incorporado ao acordo.
3. Detalhes do acordo e sinergias operacionais
A Alphabet desembolsará US$ 4,75 bilhões em caixa e assumirá dívidas da Intersect. Embora seja um valor significativo, representa menos de 5% do caixa total da controladora — um movimento estratégico, não meramente financeiro.
3.1 O que muda na prática
- Marca preservada: a Intersect continuará atuando com identidade própria, condição importante para manter contratos existentes e atrair novos clientes de fora do ecossistema Google Cloud.
- Integração de equipes: times de infraestrutura do Google ganham acesso direto a ferramentas proprietárias de projeto, incluindo algoritmos de otimização térmica e de roteamento de cabos ópticos.
- Agilidade regulatória: a Intersect já possui licenças e relacionamentos com reguladores no Texas e na Califórnia, dois dos Estados com maior dificuldade de expansão de rede.
- Escalonamento energético: usinas solares adjacentes deverão entrar em operação sincronizadas à inauguração de cada módulo de data center, reduzindo picos de demanda na rede local.
3.2 Por que não terceirizar?
Empresas podem alugar espaço em colocation ou contratar provedores de energia via mercado livre, mas a Alphabet quer controle de ponta a ponta. Ao internalizar design, construção e operação, ela ganha:
- Previsibilidade de custos: protege margens do Google Cloud, segmento que já fatura mais de US$ 35 bilhões/ano.
- Vantagem competitiva: menor latência para serviços consumer (YouTube, Busca) e corporativos (Vertex AI, Duet AI).
- Velocidade de implantação: ciclos de inovação mais curtos — fundamental para competir com rivais que lançam features semanalmente.
4. Energia: o calcanhar de Aquiles (e a principal vantagem competitiva) dos hiperescaladores
Cada rack de GPUs pode consumir até 40 kW; um único campus com 100 mil servidores ultrapassa 400 MW, equivalente a uma cidade de médio porte. O desafio energético divide-se em três frentes:
4.1 Fontes renováveis — de marketing a imperativo operacional
Há anos as big techs divulgam metas “carbon free”. Contudo, comprar créditos de carbono offshore não resolve picos de demanda local. A Intersect foca em adição de capacidade renovável física (energia solar e eólica) conectada em “behind the meter”, isto é, antes de o consumo chegar à rede pública. Os benefícios incluem:
- Redução de perdas na transmissão — quanto menor a distância, menor a dissipação.
- Menos encargo de rede — tarifas de uso do sistema de distribuição podem ser evitadas.
- Imagem de sustentabilidade lastreada em megawatt-hora real, não apenas em certificados.
4.2 Armazenamento e battery farms
A Intersect emprega baterias de lítio-ferro-fosfato para até 4 horas de autonomia, garantindo estabilidade durante variações de geração solar ao entardecer. Essa janela cobre o tempo necessário para acionar geradores de backup ou comprar energia spot se necessário.
4.3 Otimização térmica e water usage efficiency (WUE)
Em regiões áridas como o Texas, o consumo de água em sistemas de resfriamento se tornou questão política. A companhia investe em cooling loops fechados e em técnicas de resfriamento direto por líquido nas placas de GPU, reduzindo WUE abaixo de 0,3 L/kWh — patamar de referência mundial.
5. Repercussões para o mercado de nuvem e a guerra de larga escala contra AWS e Microsoft
Google Cloud, AWS e Microsoft Azure travam uma guerra de preços, performance e portfólio de IA. Vejamos como a compra da Intersect pode alterar esse tabuleiro.
5.1 Custos de computação para IA
- Elasticidade real: oferta de GPUs e TPUs costuma ser limitada; ganhar estoque próprio permite ao Google vender instâncias com menos fila de espera.
- Margem de lucro: ao baixar o custo do kWh, a Alphabet pode sustentar descontos agressivos para atrair startups de IA generativa.
5.2 Latência e presença geográfica
Quanto mais próximo o data center estiver do usuário ou da aplicação, menor o “tempo de ida e volta” dos dados. A Intersect possui projetos também na Califórnia, região crítica para atender empresas de mídia, fintechs e SaaS do oeste dos EUA. Essa proximidade vira argumento de venda contra a AWS — que ainda concentra grande parte da capacidade em Oregon e Virgínia.
5.3 Soberania e regulamentação
Clientes governamentais exigem, cada vez mais, garantia de que seus dados fiquem em território local e em instalações com certificações específicas (FedRAMP, ISO 27001, etc.). Controlar o campus facilita obter e manter esses carimbos.
6. O impacto nos ecossistemas de desenvolvimento, startups e clientes corporativos
Para além da guerra das big techs, a aquisição reverbera em diferentes camadas de mercado.
Imagem: Marieke Kramer
6.1 Startups de IA
- Mais créditos e programas de incentivo: historicamente, o Google oferece bônus de computação em nuvem; com estoque reforçado, podemos esperar pacotes ainda mais agressivos.
- Ferramentas de MLOps integradas: Vertex AI e AlloyDB devem receber upgrades otimizados para a nova infraestrutura, simplificando treinamento contínuo.
6.2 Grandes empresas
Corporations de setores tradicionais (indústria, varejo, finanças) precisam executar cargas de IA sem estourar orçamento de energia interno. Ao oferecer capacidade “verde” certificada, a Alphabet se torna parceira mais palatável para relatórios ESG.
6.3 Desenvolvedores independentes
Com maior disponibilidade de instâncias spot ou preemptibles, desenvolvedores podem treinar pequenos modelos por frações do custo atual, democratizando experimentação.
7. Desafios: nem tudo são flores na expansão hiper-scale
Embora estratégica, a aquisição traz riscos que não podem ser ignorados.
7.1 Pressão regulatória e antitruste
Congressistas norte-americanos já sinalizam preocupações de concentração de infraestrutura essencial em poucas mãos. A Alphabet terá de demonstrar que mantém condições de mercado justas para concorrentes que alugam capacidade da Intersect.
7.2 Inflação de materiais e cadeia de suprimentos
A construção de data centers exige aço, cobre, transformadores e, sobretudo, chips — todos suscetíveis a gargalos globais. Qualquer aumento de preço pode corroer o business case do projeto.
7.3 Escassez de mão de obra especializada
Engenheiros de rede e eletricistas de alta tensão são disputados a tapa nos EUA. Conter turnover será crucial para cumprir cronogramas.
7.4 Comunidades locais e licenças ambientais
Além de água e energia, questões como ruído, tráfego de caminhões e ocupação de solo geram resistência de comunidades. A Alphabet precisará investir em contrapartidas — desde programas de upskilling até investimentos em infraestrutura pública.
8. Cases práticos: aprendizados do campus Texano
O primeiro projeto conjunto Alphabet-Intersect no Texas serve de laboratório vivo. Alguns dados ilustram desafios e soluções:
- Capacidade prevista: 900 MW em três fases, somando cerca de 1,2 milhão de servidores.
- Matriz energética: 60% solar, 25% eólica, 15% rede pública (com certificados renováveis).
- Tempo de construção da fase 1: 14 meses — contra média de 24 meses na indústria.
- Taxa de PUE inicial: 1,18 (Power Usage Effectiveness), meta de 1,10 até 2028.
Esses números demonstram que a combinação de design modular e geração local pode, de fato, acelerar entregas e reduzir custos operacionais.
9. Tendências futuras: para onde vai a infraestrutura de IA até 2030?
Baseado nas movimentações da Alphabet e de outros players, podemos esboçar algumas projeções:
- Hibridização extremo-borda: parte do processamento migrará para micro data centers próximos ao 5G e ao Wi-Fi 7, diminuindo latência para aplicações de realidade aumentada.
- Ascensão de combustíveis alternativos: hidrogênio verde pode substituir geradores a diesel em modos de backup, atendendo a restrições de emissão.
- Custom chips everywhere: além de TPUs, veremos ASICs especializados por tarefa (vídeo, áudio, grafos) otimizados para consumo energético.
- Regulação de water rights: estados norte-americanos já estudam limitar uso de água em aplicações não essenciais; eficiência térmica ganhará peso semelhante ao PUE.
- Contabilidade de carbono em tempo real: dashboards que mostram emissões por chamada de API serão padrão em contratos de nuvem corporativos.
Conclusão: a aposta de US$ 4,75 bi que vale mais do que o dinheiro investido
A aquisição da Intersect pela Alphabet vai muito além de um movimento financeiro. Ela representa uma virada de chave em que infraestrutura física — tijolos, cabos, painéis solares — volta a ser protagonista em um setor acostumado a falar apenas de software. Ao controlar verticalmente data centers e fontes de energia, o Google não apenas reduz custos e carbon footprint; ele constrói uma muralha estratégica que dificulta a vida dos concorrentes em IA e nuvem.
Para desenvolvedores, startups e grandes corporações, a notícia sinaliza maior oferta de capacidade computacional com pegada ambiental reduzida. Já para o mercado como um todo, o recado é claro: a próxima fronteira da inovação em IA será travada tanto em linhas de código quanto em linhas de transmissão elétrica.
Neste cenário, compreender os meandros de energia, regulação e construção de data centers deixa de ser tema restrito a engenheiros elétricos. Passa a ser, também, conhecimento estratégico para qualquer profissional que queira participar — e prosperar — na economia movida a inteligência artificial que se desenha até o fim da década.


